Em 24 de junho de 2026, o chão se moveu de repente sob nossos pés com dois fortes terremotos: um em frente à costa venezuelana e outro na região central do país. Naqueles primeiros minutos, foi puro instinto: abraçar os meus, procurar seus olhares e confirmar, com um suspiro de alívio, que minha família imediata estava a salvo. Mas, assim que o susto inicial passou, a angústia mudou de forma. Com o coração ainda acelerado e as notícias chegando aos poucos, minha mente se voltou para as telecomunicações na zona do desastre. Do meu lugar na academia, não conseguia evitar me perguntar: o que havia acontecido com a infraestrutura de Internet do país e o que significava aquela desconexão para milhares de famílias que, em meio ao caos, precisavam desesperadamente saber como estavam seus entes queridos?
A realidade técnica confirmou meus piores temores. Nas áreas mais afetadas, o colapso e os danos estruturais nos edifícios levaram consigo as estações rádio-base instaladas nos telhados, deixando comunidades inteiras sem comunicação. A situação foi particularmente delicada em La Guaira, onde o alto nível do lençol freático e a proximidade do mar obrigam à utilização de redes aéreas de fibra óptica, que sofreram graves danos.
Os maiores estragos se concentraram em La Guaira e Yaracuy, onde a violência do terremoto atingiu diretamente a infraestrutura crítica. Por sua vez, o tremor sacudiu com força estados vizinhos, como Miranda, Carabobo e Aragua, devido à proximidade dos epicentros. No entanto, como costuma acontecer nessas situações de emergência, a realidade foi ainda mais dura nas áreas rurais: comunidades que já enfrentam diariamente conexões frágeis, alta latência e intermitência ficaram mergulhadas em um silêncio digital ainda mais intenso nos dias seguintes.
Mas o impacto mais crítico sobre a conectividade de todo o país ocorreu no mar. A apenas 1,8 quilômetro da costa, muito próximo de onde se originou o segundo terremoto, de magnitude 7,5, a força do terremoto rompeu o cabo submarino South American Crossing (SAC).
Não se tratava de um cabo qualquer: por essa artéria submarina circula cerca de 50% da largura de banda internacional da Venezuela. A ruptura representada no mapa se traduziu imediatamente no cotidiano de milhões de pessoas, manifestando-se em picos de latência, lentidão e um grave congestionamento nos horários de maior tráfego, relatado por usuários e provedores em todo o território nacional.
Nas semanas que se seguiram, perdi a conta de quantas vezes me fizeram a mesma pergunta, às vezes com frustração e quase sempre com impaciência: por que demora tanto para reparar um cabo submarino? A resposta não é simples, porque, no fundo do mar, nada é simples. Reparar uma ruptura em grandes profundidades exige navios especializados, equipe técnica, condições adequadas para intervir no cabo e as devidas autorizações regulatórias. Enquanto as embarcações trabalhavam contra o relógio no mar, em terra foram ativadas rotas alternativas: a habilitação de rotas terrestres para a Colômbia, o que permitiu aliviar o sufocamento digital e recuperar gradualmente parte da largura de banda. Foi somente em 24 de julho que veio o alívio definitivo, com a confirmação de que o SAC estava totalmente reparado.
A conectividade como infraestrutura de emergência
Se algo ficou claro durante aquelas primeiras horas foi que, em uma situação de emergência, a conectividade deixa de ser apenas um serviço: ela se transforma em uma ferramenta essencial para pedir ajuda, coordenar ações e manter a população informada.
Com as estações rádio-base fora de serviço e as dificuldades nas redes celulares das áreas mais afetadas, as operadoras solicitaram apoio para habilitar alternativas de emergência. Entre elas esteve o serviço de conexão direta ao dispositivo (D2D) da Starlink, ativado mediante uma autorização especial da CONATEL, que permitiu manter comunicações básicas nas áreas afetadas com as três operadoras de telefonia celular do nosso país.
Ao mesmo tempo, começaram a ser implantadas redes Wi-Fi de emergência, utilizando equipamentos via satélite, baterias e painéis solares. Nesse esforço, tiveram um papel especialmente relevante organizações da sociedade civil, como Conexión Segura y Libre, Reconecta Venezuela, Redes Ayuda e Internet Society Venezuela, que, juntas, instalaram mais de 200 pontos de conectividade gratuita nas áreas mais afetadas. Da mesma forma, organizações internacionais como Télécom Sans Frontières, Colnodo e SpaceX foram grandes aliadas na articulação dessas iniciativas para o atendimento da emergência e, posteriormente, no apoio às comunidades que foram deslocadas.
A experiência nos mostrou algo fundamental: a resiliência não depende de uma única tecnologia nem de um único ator. Nos momentos mais críticos, a conectividade pôde ser mantida graças à combinação de redes via satélite, soluções Wi-Fi, fontes alternativas de energia e à capacidade de diferentes atores de se coordenarem e implementarem respostas rápidas.
Ainda assim, houve áreas que permaneceram sem comunicação durante vários dias. A falta de eletricidade e a queda das redes celulares também dificultaram a coordenação das equipes de resgate. Nas primeiras horas, parte das informações sobre o que estava acontecendo começou a chegar por meio de pessoas que conseguiam sair das áreas mais afetadas e chegar a locais onde ainda havia serviço.
O que esta crise nos deixou
Com a confirmação do reparo do cabo submarino, as principais falhas de conectividade internacional foram superadas. Mas isso não significa que tudo esteja resolvido. Nas áreas mais atingidas, ainda estão sendo realizados trabalhos de reparo nas redes de fibra óptica e nas estações rádio-base, e ainda há locais sem energia elétrica ou com fornecimento precário, o que continua se traduzindo em falhas no serviço de Internet.
Na Universidade de Los Andes, estamos realizando um estudo com sondas do RIPE Atlas para medir com precisão como o corte do cabo submarino afetou a latência e os tempos de resposta no país. Contar com esses dados nos permitirá compreender melhor o impacto do ocorrido e extrair aprendizados que possam contribuir para fortalecer a resiliência da rede diante de futuros eventos.
Essa crise também voltou a colocar em pauta a necessidade de fortalecer a infraestrutura de pontos de troca de tráfego (IXPs) na Venezuela. Contar com mais IXPs não substitui a conectividade internacional, mas permite que uma parcela maior do tráfego, cuja origem e destino estejam dentro do país, permaneça local, reduzindo dependências desnecessárias e contribuindo para uma rede mais eficiente e resiliente. Contar com o nap.ve foi fundamental para a economia de tráfego local. No entanto, ficou claro que precisamos de mais pontos de troca de tráfego em nosso país para fortalecer a resiliência da nossa Internet.
Por último, acredito que esta experiência confirma algo que a gente já intuía: as redes via satélite devem ter um lugar no planejamento da conectividade de emergência de um país com risco sísmico como o nosso e podem ser especialmente relevantes em áreas remotas e rurais. Mas a tecnologia, por si só, não é suficiente. Também é indispensável que as organizações da sociedade civil, as operadoras, o setor privado e as instituições disponham, antecipadamente, de equipamentos, protocolos e mecanismos de coordenação prontos para serem acionados diante de um desastre.
A coordenação entre a CONATEL, as câmaras empresariais, como a CASETEL e a CANAEMTE, as operadoras privadas e a sociedade civil funcionou, porém, em grande medida, teve de ser construída ao longo do processo. Esse talvez seja um dos aprendizados mais importantes que esta crise nos deixa: a resiliência não começa quando ocorre a emergência. Ela é construída antes, diversificando a infraestrutura, preparando alternativas e fortalecendo a capacidade dos diferentes atores de responder de forma coordenada quando ela é mais necessária.