Quando a terra se moveu: Internet, terremotos e resiliência digital da Venezuela

19 de agosto de 2026

Quando a terra se moveu: Internet, terremotos e resiliência digital da Venezuela

Por Alejandra Stolk Ganteaume

Em 24 de junho de 2026, o chão se moveu de repente sob nossos pés com dois fortes terremotos: um em frente à costa venezuelana e outro na região central do país. Naqueles primeiros minutos, foi puro instinto: abraçar os meus, procurar seus olhares e confirmar, com um suspiro de alívio, que minha família imediata estava a salvo. Mas, assim que o susto inicial passou, a angústia mudou de forma. Com o coração ainda acelerado e as notícias chegando aos poucos, minha mente se voltou para as telecomunicações na zona do desastre. Do meu lugar na academia, não conseguia evitar me perguntar: o que havia acontecido com a infraestrutura de Internet do país e o que significava aquela desconexão para milhares de famílias que, em meio ao caos, precisavam desesperadamente saber como estavam seus entes queridos?

A realidade técnica confirmou meus piores temores. Nas áreas mais afetadas, o colapso e os danos estruturais nos edifícios levaram consigo as estações rádio-base instaladas nos telhados, deixando comunidades inteiras sem comunicação. A situação foi particularmente delicada em La Guaira, onde o alto nível do lençol freático e a proximidade do mar obrigam à utilização de redes aéreas de fibra óptica, que sofreram graves danos.

Os maiores estragos se concentraram em La Guaira e Yaracuy, onde a violência do terremoto atingiu diretamente a infraestrutura crítica. Por sua vez, o tremor sacudiu com força estados vizinhos, como Miranda, Carabobo e Aragua, devido à proximidade dos epicentros. No entanto, como costuma acontecer nessas situações de emergência, a realidade foi ainda mais dura nas áreas rurais: comunidades que já enfrentam diariamente conexões frágeis, alta latência e intermitência ficaram mergulhadas em um silêncio digital ainda mais intenso nos dias seguintes.

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Mas o impacto mais crítico sobre a conectividade de todo o país ocorreu no mar. A apenas 1,8 quilômetro da costa, muito próximo de onde se originou o segundo terremoto, de magnitude 7,5, a força do terremoto rompeu o cabo submarino South American Crossing (SAC).

Não se tratava de um cabo qualquer: por essa artéria submarina circula cerca de 50% da largura de banda internacional da Venezuela. A ruptura representada no mapa se traduziu imediatamente no cotidiano de milhões de pessoas, manifestando-se em picos de latência, lentidão e um grave congestionamento nos horários de maior tráfego, relatado por usuários e provedores em todo o território nacional.

Nas semanas que se seguiram, perdi a conta de quantas vezes me fizeram a mesma pergunta, às vezes com frustração e quase sempre com impaciência: por que demora tanto para reparar um cabo submarino? A resposta não é simples, porque, no fundo do mar, nada é simples. Reparar uma ruptura em grandes profundidades exige navios especializados, equipe técnica, condições adequadas para intervir no cabo e as devidas autorizações regulatórias. Enquanto as embarcações trabalhavam contra o relógio no mar, em terra foram ativadas rotas alternativas: a habilitação de rotas terrestres para a Colômbia, o que permitiu aliviar o sufocamento digital e recuperar gradualmente parte da largura de banda. Foi somente em 24 de julho que veio o alívio definitivo, com a confirmação de que o SAC estava totalmente reparado.

As opiniões expressas pelos autores deste blog são próprias e não refletem necessariamente as opiniões de LACNIC.

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