Após mais de duas décadas de expansão sustentada, a Internet continua crescendo sem perder sua essência. As chaves técnicas, escalabilidade, flexibilidade, adaptabilidade e resiliência, ajudam a explicar por que essa rede conseguiu se consolidar e sustentar sua evolução ao longo do tempo.
Há alguns anos, mais precisamente em 2022, compartilhamos com vocês os resultados de um estudo elaborado pela LACNIC e pela APNIC sobre a evolução e o desempenho técnico da Internet ao longo de duas décadas.
O tempo passou, mas a estrutura central daquelas conclusões sobre os fatores técnicos do sucesso da Internet permanece atual. Mais ainda: eu diria que esses fatores se tornam cada vez mais determinantes e constituem os alicerces do crescimento e do desenvolvimento contínuos da Internet.
Vale a pena, então, revisitar o modelo técnico que explica o sucesso da Internet e entender por que, diferentemente de outras redes surgidas nos anos 70 e 80 — algumas inclusive com alcance global —, esta conseguiu se consolidar como a infraestrutura crítica da vida moderna.
Escalar sem se quebrar
Em primeiro lugar, o número de usuários conectados não parou de crescer, mesmo atravessando crises econômicas globais como a bolha “pontocom” de 2001 e a crise financeira de 2008. Esse crescimento não foi apenas sustentado, mas, na América Latina e no Caribe, ocorreu em um ritmo superior à média mundial em vários períodos, algo que também se reflete em indicadores de adoção (Gráfico 1).
Gráfico 1. Percentual da população que utiliza a Internet (%), Mundo e América Latina e Caribe. Fonte: Our World in Data, Share of the population using the Internet (indicador ITU/Banco Mundial, IT.NET.USER.ZS).
Esse crescimento também se apoia no avanço da conectividade móvel. A banda larga móvel tornou-se um motor fundamental para a expansão do acesso: por exemplo, a ITU informa que, em 2025, há 99 assinaturas de banda larga móvel para cada 100 habitantes em escala global.
(Acesso livre, não requer assinatura)
A chave está no desenho original: tanto as tecnologias físicas (fibra ótica, Wi-Fi, redes móveis e, mais recentemente, conectividade via satélite) quanto os protocolos permitem ampliar o número de usuários e a capacidade sem alterar a essência do sistema. O IP, concebido nos anos 80, pode operar hoje sobre infraestruturas que naquela época sequer existiam: isso não é por acaso, mas resultado de decisões deliberadas de arquitetura tomadas nas décadas de 1970 e 1980.
Nesse contexto, o recente salto da conectividade via satélite também ilustra a capacidade da Internet de incorporar novas camadas de acesso sem precisar “se reinventar”. Um sinal indireto desse impulso é o forte aumento no número anual de objetos lançados ao espaço (Gráfico 2).
Gráfico 2. Número anual de objetos lançados ao espaço (mundo). Fonte: Our World in Data, Annual number of objects launched into space, baseado em registros nacionais enviados às Nações Unidas (UNOOSA).
A chave está no desenho original: tanto as tecnologias físicas (fibra ótica, Wi-Fi, redes móveis e, mais recentemente, conectividade via satélite) quanto os protocolos permitem ampliar o número de usuários e a capacidade sem alterar a essência do sistema. O IP, concebido nos anos 80, pode operar hoje sobre infraestruturas que naquela época sequer existiam: isso não é por acaso, mas resultado de decisões deliberadas de arquitetura tomadas nas décadas de 1970 e 1980.
Nesse contexto, o recente salto da conectividade via satélite também ilustra a capacidade da Internet de incorporar novas camadas de acesso sem precisar “se reinventar”. Um sinal indireto desse impulso é o forte aumento no número anual de objetos lançados ao espaço (Gráfico 2).
Gráfico 2. Número anual de objetos lançados ao espaço (mundo). Fonte: Our World in Data, Annual number of objects launched into space, baseado em registros nacionais enviados às Nações Unidas (UNOOSA).
Uma rede que não é uma única rede
A escalabilidade da Internet não seria possível sem uma arquitetura flexível. Nesse sentido, acreditamos que dois princípios foram determinantes.
Primeiro, o modelo em camadas: cada protocolo cumpre uma função específica e pode evoluir ou ser substituído sem necessariamente afetar os que estão “acima” ou “abaixo”. Os níveis mais baixos estão ligados à transmissão física; os superiores, às aplicações utilizadas pelas pessoas.
Segundo, o modelo de “rede de redes”: a Internet não é uma única rede centralizada, mas sim uma federação de redes autônomas. Cada uma toma decisões técnicas e comerciais próprias. Um provedor pode usar fibra; outro, a rede celular (LTE ou 5G); outro, enlaces via satélite ou sem fio. No entanto, todos podem interoperar de maneira transparente, já que o protocolo IP abstrai as aplicações das particularidades de cada tecnologia de transporte.
A interconexão entre essas redes também é flexível. Existem acordos privados (peering um a um), bem como pontos de troca de tráfego (IXP), espaços onde múltiplas redes se conectam e acordam como trocar tráfego. Esse modelo descentralizado demonstrou ser extraordinariamente eficiente e adaptável.
Em conjunto, a combinação de tecnologias de acesso — fixas e móveis, de banda larga e tradicionais — mostra como a Internet pode se expandir apoiando-se em múltiplas “camadas” e meios de conectividade (ver Gráfico 3).
Gráfico 3. Adoção de tecnologias de comunicação por cada 100 habitantes (mundo). Fonte: Our World in Data, Adoption of communication technologies per 100 people (dados da ITU via Banco Mundial).
Inovar sem pedir permissão
As pessoas não se conectam à Internet pela infraestrutura em si, mas pelo que podem fazer com ela: fazer negócios, comunicar-se, informar-se, estudar, trabalhar, comprar e, claro, se entreter.
Nos anos 80, os usos eram limitados: correio eletrônico, sessões remotas e transferência de arquivos. Em 2002, já haviam surgido a Web, as mensagens instantâneas e os primeiros portais de comércio eletrônico. Duas décadas depois, o ecossistema é praticamente ilimitado: videoconferência, streaming de vídeo, banco digital, comércio eletrônico em grande escala e redes sociais.
Plataformas como YouTube ou Netflix são exemplos de aplicações que demandam enormes volumes de dados e que não estavam no horizonte quando a rede foi projetada.
Essa capacidade de adaptação se explica, novamente, pelo modelo em camadas. As inovações podem ser desenvolvidas em níveis superiores sem alterar o núcleo da rede. A isso se soma um conceito fundamental: permissionless innovation (inovação sem permissão). Na Internet, não é necessário pedir autorização para criar uma nova aplicação. Qualquer pessoa pode inovar sobre a infraestrutura existente.
Resistência a ataques e crises
O crescimento constante e o valor econômico das transações on-line também atraíram ameaças. Desde os anos 90, previam-se possíveis colapsos do sistema de roteamento e do sistema de numeração. No início dos anos 2000 surgiram grandes ataques de malware — como ILOVEYOU ou SQL Slammer — e consolidaram-se os ataques de negação de serviço distribuído (DDoS), capazes de afetar milhões de usuários.
No entanto, a Internet respondeu fortalecendo sua infraestrutura e sua engenharia. O aumento da largura de banda, a expansão dos pontos de troca de tráfego (IXP) e a implantação distribuída de componentes críticos — como o sistema raiz do DNS, que opera como uma rede global com centenas de servidores em muitos países — reforçaram a robustez do sistema.
Uma das chaves dessa robustez tem sido os IXP, por sua contribuição para uma Internet mais rápida, confiável e eficiente. Ao facilitar a troca local de tráfego, eles reduzem a dependência de rotas internacionais para o tráfego doméstico, algo que costuma melhorar custos e desempenho, além de aumentar a resiliência.
Gráfico 4. Crescimento acumulado do número de pontos de troca de Internet (IXPs), por região. Fonte:Internet Society Pulse.
Também houve avanços protocolários decisivos: a adoção do IPv6 para ampliar o espaço de numeração, a implementação do RPKI para reforçar a segurança do sistema de roteamento e tecnologias como DNSSEC, DoT e DoH para fortalecer a resolução de nomes.
Uma amostra dos ataques constantes foi evidenciada em um recente artigo de uma das empresas de cibersegurança mais destacadas do mundo: a empresa informou que mitigou mais de 14,5 milhões de ataques DDoS desde o início de 2024, o que equivale a uma média de 2.200 ataques por hora.
Gráfico 5. Evolução do pico de largura de banda em ataques DDoS volumétricos (recorde acumulado de divulgações públicas), 2011–2025. Fonte:Cloudflare.
De qualquer forma, a Internet tem respondido de múltiplas maneiras. No caso dos ataques de DDoS, a forma de enfrentá-los é, fundamentalmente, por meio do aumento da capacidade da infraestrutura. Além do aumento da largura de banda que mencionamos anteriormente, também se destaca o crescimento do número de IXPs e de cópias de servidores raiz do DNS.
A Internet é uma plataforma em permanente construção. Assim como as antigas estradas romanas ou as ruas históricas de qualquer cidade, sua superfície muda, se renova e se moderniza. Mas seu espírito original — uma rede aberta, interoperável e descentralizada — permanece.
Esse equilíbrio entre estabilidade estrutural e inovação constante explica, em grande medida, seu sucesso técnico e seu impacto social.