Este artigo foi publicado originalmente no blog de APNIC.
O RPKI tornou-se a principal defesa da Internet contra sequestros de rotas no protocolo BGP (Border Gateway Protocol). Ao permitir que os operadores de rede autorizem criptograficamente Sistemas Autônomos (AS) que podem originar prefixos IP específicos, o RPKI ajuda a prevenir uma ampla gama de vazamentos acidentais, erros de configuração e alguns ataques maliciosos de sequestro de rotas.
Sempre que uma Autorização de Origem de Rota (ROA) é criada, modificada, revogada ou expira, os roteadores que realizam a Validação de Origem de Rota (ROV) podem precisar reavaliar suas decisões de roteamento. Essas decisões podem, então, propagar-se por meio do BGP, gerando mais atualizações deste protocolo. Em outras palavras, o RPKI introduz uma nova categoria de eventos que podem, potencialmente, desencadear alterações do roteamento em toda a Internet.
(Acesso livre, não requer assinatura)
Isso levanta a seguinte preocupação: A crescente implementação do RPKI poderia se tornar uma ameaça para a estabilidade do roteamento? Para responder a essa pergunta, analisamos mais de 11 anos de dados do RPKI e BGP, medindo quanto da atividade de roteamento pode ser associada a mudanças relacionadas ao RPKI.
O RPKI está crescendo de forma muito rápida
Para compreender a relevância da nossa pergunta sobre o impacto do RPKI no roteamento, vale a pena examinar o quanto o ecossistema do RPKI se transformou ao longo do tempo.
Figura 1: Número de adições, expirações e revogações de ROA no arquivo do RIPE, de 2014 a 2025.
Isso levanta a seguinte preocupação: A crescente implementação do RPKI poderia se tornar uma ameaça para a estabilidade do roteamento? Para responder a essa pergunta, analisamos mais de 11 anos de dados do RPKI e BGP, medindo quanto da atividade de roteamento pode ser associada a mudanças relacionadas ao RPKI.
O RPKI está crescendo de forma muito rápida
Para compreender a relevância da nossa pergunta sobre o impacto do RPKI no roteamento, vale a pena examinar o quanto o ecossistema do RPKI se transformou ao longo do tempo.
Figura 1: Número de adições, expirações e revogações de ROA no arquivo do RIPE, de 2014 a 2025.
A Figura 1 mostra a evolução das alterações no RPKI observadas entre 2014 e 2025. O número de criações, expirações e revogações de ROA tem aumentado significativamente ao longo dos anos, tanto para o IPv4 quanto para o IPv6.
Essa tendência reflete a crescente adoção do RPKI por parte dos operadores de rede, e o incremento do espaço de endereçamento protegido por meio de ROA. As iniciativas regulatórias e as melhores práticas do setor estão acelerando ainda mais essa implementação.
A consequência é clara: se cada alteração no RPKI tem o potencial de acionar atualizações do roteamento, um crescimento acelerado nas modificações do RPKI poderia se traduzir em um volume de atividade do BGP também em rápido crescimento.
Nosso estudo busca determinar se essa atividade do BGP continua sendo insignificante ou se adquire relevância operacional.
Criação de uma máquina do tempo do RPKI que abrange 11 anos
Medir o impacto do RPKI no BGP é mais desafiador do que poderia parecer à primeira vista.
O primeiro desafio é identificar os momentos em que o RPKI pode realmente influenciar o roteamento. A criação ou revogação de um ROA não se traduz automaticamente em uma mudança de roteamento. O que importa é se o conjunto de autorizações visto pelos roteadores muda. Esses momentos são chamados de “eventos RPKI”. Um evento RPKI acontece sempre que uma autorização validada (VRP) torna-se disponível ou desaparece, o que poderia alterar o estado de validação, impactar as decisões de roteamento e, consequentemente, desencadear um ou mais anúncios BGP.
O segundo desafio é a visibilidade histórica. Embora seja possível observar a atividade recente do RPKI em detalhe, obter uma visão comparável que abranja mais de uma década exige a reconstrução dos eventos a partir de dados de arquivo.
Para enfrentar esses desafios, desenvolvemos uma metodologia que combina informações históricas do RPKI com medições de atualizações do BGP.
Em primeiro lugar, reconstruímos os eventos RPKI a partir dos conjuntos de dados disponíveis.
Em seguida, para cada evento RPKI, identificamos as atualizações do BGP que aconteceram durante o período de convergência correspondente. Vale ressaltar que selecionamos um limiar conservador para o período de convergência e consideramos todas as atualizações dentro dessa janela de tempo como relacionadas ao RPKI, o que talvez tenha levado a uma superestimativa do volume total.
Finalmente, comparamos o volume de atualizações medido após um evento RPKI com o volume total de atualizações do BGP observadas na Internet.
Nossa metodologia criou uma "máquina do tempo" que abrange 11 anos e nos permite acompanhar a evolução do impacto do RPKI no roteamento, desde o início de sua implementação até os dias atuais.
Dados do Arquivo do RIPE e de Flutter
O estudo é baseado em duas fontes de dados do RPKI complementares.
A primeira é o Arquivo RPKI do RIPE, que contém instantâneos históricos desde os primeiros anos da implementação do RPKI. Sua principal vantagem é a sua abrangência: permite analisar mais de uma década de histórico operacional. Sua limitação reside no fato de registrar instantâneos diários, e não diretamente eventos RPKI. Isso significa que é possível que algumas mudanças de curta duração não sejam visíveis.
A segunda fonte é o RPKI-Flutter, uma plataforma mais recente que coleta eventos RPKI diretamente de múltiplos validadores distribuídos geograficamente, com uma frequência de coleta muito maior. O Flutter oferece uma visão mais precisa da atividade atual do RPKI, mas apenas para um período relativamente recente, a partir de 2024. Dado que nenhuma fonte isolada proporciona simultaneamente cobertura a longo prazo e visibilidade de eventos de alta fidelidade, usamos o Flutter como referência para validar a metodologia de reconstrução de eventos sobre a base do Arquivo do RIPE.
Figura 2 (a – b): Comparação entre o número de atualizações relacionadas ao RPKI observadas usando eventos do Flutter e usando eventos do Arquivo do RIPE, no período compreendido entre maio de 2024 e agosto de 2025, para o IPv4 (a) e o IPv6 (b).
A Figura 2 compara o número de atualizações do BGP relacionadas ao RPKI, identificadas usando eventos obtidos do Arquivo e eventos observados pelo Flutter durante o período em que ambos os conjuntos de dados se sobrepõem.
Os volumes de atualizações resultantes são muito semelhantes. Esta observação sugere que a metodologia baseada no Arquivo fornece uma estimativa confiável da atividade histórica de roteamento induzida pelo RPKI, o que nos permite ampliar a análise muito além do período coberto pelo Flutter.
O RPKI não é uma fonte prejudicial de ruído no BGP.
O resultado principal do artigo é resumido na Figura 3.
Figura 3 (a – b): Gráfico cronológico que mostra a porcentagem de atualizações relacionadas ao RPKI, em (a) escala logarítmica e em (b) escala linear, sem picos e com a adição de curvas de regressão exponencial.
As figuras mostram a percentagem de todas as atualizações do BGP observadas que podem ser associadas a eventos do RPKI ao longo do tempo. Apesar de essa percentagem estar crescendo visivelmente, ela continua sendo minúscula se comparada ao volume total de atividade BGP.
Mesmo adotando metodologias que tendem a superestimar o número de atualizações induzidas pelo RPKI, a contribuição observada permanece bem abaixo de 1% do volume total de atualizações do BGP.
Do outro lado, os dados revelam uma clara tendência de alta. Conforme mais espaço de endereços ganham a proteção do RPKI e mais redes implementam ROV, o volume de atividades de roteamento relacionadas ao RPKI também aumenta. O crescimento é visível tanto nos dados históricos baseados em arquivos quanto nas medições mais recentes do Flutter.
O importante é que, embora a tendência seja de crescimento, a contribuição absoluta continua sendo muito reduzida.
Com o que você deveria se preocupar?
Do ponto de vista operacional, os resultados são tranquilizadores.
Em primeiro lugar, o estudo apresenta evidências robustas de que o RPKI não constitui, atualmente, uma fonte significativa de ruído no BGP. Mesmo que os eventos RPKI possam dar origem a atualizações de roteamento, o volume resultante é insignificante.
Em segundo lugar, os resultados sugerem que os operadores não deveriam considerar a estabilidade do roteamento como um obstáculo importante para a implementação do RPKI. Desde que os ROA sejam gerenciados corretamente e as melhores práticas operacionais sejam seguidas, a carga adicional de roteamento introduzida pelo RPKI parece ser muito reduzida.
No entanto, a história não termina aqui. O crescimento das atualizações relacionadas ao RPKI acompanha de perto o crescimento da própria implementação do RPKI, e a tendência observada em ambos é de aumento. Conforme a adoção do ROV se expande, o impacto operacional do RPKI poderia continuar a evoluindo. Por esse motivo, o monitoramento constante continua sendo importante. A boa notícia é que, após analisar mais de onze anos de medições, podemos concluir que os benefícios do RPKI em matéria de segurança, hoje são obtidos com um impacto bem reduzido na estabilidade do roteamento.