Na Digitel, uma das principais operadoras móveis da Venezuela, tornamo-nos a primeira do país a concluir nossa transição para o IPv6 em grande escala.
Hoje, mais de 5 milhões de dispositivos móveis conectados à nossa rede (74% do total de dispositivos conectados) e 42% de todo o tráfego móvel da empresa navegam sob o novo protocolo.
Como realizamos este processo e por que o acompanhamento do LACNIC foi fundamental para alcançá-lo? Vamos contar tudo neste artigo.
O caminho para o IPv6 na Digitel não aconteceu da noite para o dia; foi um processo iniciado por volta de 2015, quando começamos a promover internamente a ideia de preparar a rede para o novo protocolo
Como em qualquer projeto, os passos iniciais foram modestos: um laboratório interno, um servidor web de testes e conexões limitadas para a nossa equipe e, posteriormente, para os funcionários. Em 2016, já existia um projeto formal voltado para a rede móvel, o segmento onde se concentrava a maior parte dos nossos usuários, e o core da rede ficou preparado para habilitar o IPv6 para os assinantes.
No entanto, nos deparamos com obstáculos recorrentes: compatibilidade dos dispositivos, uma plataforma de controle de sessões que duplicava sua carga ao gerenciar o IPv4 e o IPv6 separadamente, problemas com os DNS e ajustes pendentes nos sistemas de faturamento.
Outro aspecto relevante foi o estrito controle orçamentário, no qual optamos por realizar a maior parte das modificações com recursos internos, de modo a reduzir custos.
O verdadeiro gargalo final foi de natureza regulatória: era imprescindível garantir a rastreabilidade entre os usuários finais, bem como saber qual endereço IP tinham usado em um determinado momento, o que exige a manutenção de um histórico dos endereços IP designados aos dispositivos móveis. O problema que encontramos foi que os registros CDR (Call Detail Records) da rede armazenavam o endereço IPv4, mas não o IPv6; resolver essa lacuna nos levou cerca de um ano adicional.
Ativação em etapas: a chave da implementação
Quando finalmente chegou o momento de ativar o serviço em larga escala, na Digitel optamos por uma abordagem gradativa que resultou decisiva para o sucesso do projeto.
Primeiro, habilitamos o IPv6 para um grupo piloto reduzido; depois, para 100% dos funcionários da empresa durante cerca de três meses; em seguida, para os assinantes com novas linhas; e, finalmente, para a totalidade do banco de clientes: cerca de 9 milhões de usuários.
A ativação na tecnologia 4G foi resolvida de uma só vez, com a aplicação de um modelo único para todos os assinantes; já no 3G, o processo precisou ser realizado em lotes de 250 mil a 500 mil usuários. O resultado surpreendeu toda a equipe técnica: esperávamos alcançar cerca de 2 milhões de usuários ativos no IPv6, mas em apenas dois dias após a ativação do perfil Dual Stack no 4G, já tínhamos atingido quase 5 milhões, impulsionados em grande parte pelo fato de que as versões recentes dos telefones Android e Apple já trazem a configuração de Dual Stack habilitada por padrão.
Desafios técnicos: do Core às consultas DNS
Na rede de acesso, o suporte ao IPv6 não apresentou grandes complexidades. O verdadeiro trabalho concentrou-se no core da rede. Na Digitel contamos com o apoio de fornecedores para adaptar a infraestrutura, um esforço que se aprofundou com a modernização completa do core em 2022, momento em que a plataforma do DNS também foi renovada.
Um dos efeitos menos previstos da implementação foi o aumento nas consultas aos servidores DNS, fruto do mecanismo Happy Eyeballs, que faz com que cada dispositivo com suporte a Dual Stack realize duas consultas em vez de uma. Essa duplicação fez a carga dos servidores DNS da Digitel saltar de 20% para quase 45%, um sinal de alerta que agora exige da nossa equipe o planejamento da capacidade futura da rede, com o objetivo de avançar para um modelo IPv6 mostly .
A contribuição do LACNIC : capacitação contínua como impulsionadora da mudança
A capacitação técnica proporcionada pelo LACNIC, seja nos eventos e encontros regionais quanto nos cursos do Campus LACNIC, foi um recurso fundamental em todo esse percurso, que fizemos quase juntos. Além disso, recebemos capacitações do Grupo de Operadores de Rede da Venezuela (VENOG).
Além de esclarecer dúvidas específicas, esse acompanhamento nos ajudou a sustentar a “evangelização interna” do projeto: convencer outras áreas da organização sobre a necessidade de continuar investindo na preparação da rede para o IPv6, mesmo quando a disponibilidade de endereços IPv4 na Digitel ainda não representava uma urgência imediata. Essa capacitação constante permitiu desenvolver critérios técnicos internos e complementar o conhecimento com a contribuição de outros fornecedores locais, outro fator-chave para sustentar o projeto ao longo de quase uma década.
Nosso caso também foi impulsionado por uma mudança regulatória na Venezuela, uma vez que a Conatel, o órgão regulador das telecomunicações no nosso país, publicou em junho de 2025 uma norma que estabelece um prazo de 24 meses, a contar da sua publicação, para que as operadoras do país concluam a implementação do Dual Stack como mecanismo de transição para o IPv6. Na Digitel, fomos a primeira operadora móvel a cumprir esse objetivo.
Conselhos Para as operadoras da região que ainda têm dúvidas sobre dar o passo rumo ao IPv6, o conselho é levar o processo a sério e avaliá-lo de forma abrangente: não apenas os aspectos técnicos, mas também os relacionados aos terminais e ao marco regulatório. Trata-se, além disso, de um processo que exige uma equipe dedicada, capaz de manter o diálogo com as áreas de operação, manutenção e orçamento pelo tempo que for necessário.
Com mais de 5 milhões de telefones ativos no IPv6 e 42% do tráfego móvel já circulando sob o novo protocolo, a Digitel consolidou-se como um caso de referência na América Latina e o Caribe, além de um exemplo de como a capacitação contínua promovida pelo LACNIC pode acompanhar e sustentar processos de transição tecnológica em larga escala na região.
Encontre mais informações e recursos úteis sobre como implementar o IPv6 aqui.