Explorando o futuro da cibersegurança: uma perspectiva focada na América Latina e no Caribe

30 de maio de 2023

Explorando o futuro da cibersegurança: uma perspectiva focada na América Latina e no Caribe

Kevon Swift– Líder de Assuntos de Segurança Pública

Se você já participou de algum evento tecnológico importante durante a última década, certamente terá se deparado com acaloradas discussões sobre cibersegurança. Este tópico tem compartilhado protagonismo com temas como computação em nuvem, tecnologia quântica, Internet das coisas e Inteligência artificial. Porém, em meio desta estridente cacofonia… o que faz com que um painel sobre cibersegurança organizado durante o recentemente concluído evento LACNIC 39 seja tão relevante? A resposta está nas profundas transformações que deram formato novo ao panorama cibernético nos últimos dez anos, revelando verdades inquietantes sobre o estado infelizmente pouco desenvolvido da higiene cibernética no mundo. No entanto, em meio às inquietantes revelações, surge um raio de esperança. A sabedoria compartilhada nas conferências anteriores sobre cibersegurança, com ênfase no elemento humano e no poder da colaboração, continua sendo tão oportuna hoje como foi sempre.

No LACNIC 39 tive o privilégio de moderar o painel titulado “O Futuro da Cibersegurança”, acompanhado pelo Sr. Pablo Álvarez, SIIES Governo de Yucatán; o Sr. Sabas Casas, ACCENTURE México; o Sr. Wilberth Pérez, Reitor do CSIRT-UADY (Universidad Autónoma de Yucatán); o Sr. John Brown, Team Cymru Senior Security Evangelist; e o Embaixador Claudio Peguero, Assessor de Assuntos Cibernéticos do Ministério das Relaciones Exteriores da República Dominicana. Nossos caros cinco especialistas em cibersegurança esclareceram assuntos urgentes como o estado atual da higiene cibernética, as tendências mundiais na matéria de crime cibernéticos e incidentes, bem como nossas defesas mais potentes contra os riscos iminentes que espreitam o ciberespaço. A conversa começou aprofundando nas evidências e lugares comuns que minaram nossa decepcionante higiene cibernética. Uma destas revelações foi a desafortunada relegação da cibersegurança a um mero problema informático, frequentemente subestimado por aqueles que tomam decisões empresariais e não conseguem compreender a natureza multiface de seus riscos.

O painel constatou erros de comunicação, equivalentes a “perdas na tradução” entre os diretores de segurança da informação (os CISO) e os que priorizam os lucros financeiros a curto prazo dentro das organizações. Resulta desalentador que ainda persista uma visão desinformada do campo de segurança da informação, o que faz com que perpetue a ideia errada de que as medidas de segurança se reduzem apenas à compra de firewalls e antivírus. Na verdade, a desconexão entre os profissionais das diversas áreas não é um fenômeno novo. Então, o que mudou realmente no nosso entorno?

(Acesso livre, não requer assinatura)

São três os fatores importantes que nos levaram a impulsionar e a agir nesta ocasião. Em primeiro lugar, a pandemia global nos impulsionou a uma dependência sem precedentes dos serviços e das tecnologias da Internet, introduzindo assim muitos clientes para os quais tudo o que era digital, considerava-se novo e, além disso, possuíam diferentes níveis de competência tecnológica e consciência no âmbito digital. Surgiram tendências alarmantes, revelando que tanto os adultos jovens quanto os adultos maiores são particularmente vulneráveis a serem vítimas do crime cibernético. A atitude displicente perante a privacidade dos dados ou a limitada familiaridade com ferramentas digitais, como é o caso das pessoas maiores de 75 anos, fez com estas que se tornassem alvos fáceis. Em segundo lugar, a rápida digitalização observada nos governos, nas empresas e no setor da educação superou o desenvolvimento de sólidos planos de contingência e segurança por parte dos CISO. Ao migrar rapidamente os ativos para o âmbito virtual, tornou-se evidente a necessidade crítica de contar com medidas de segurança integrais. Porém, a implementação destas medidas teve dificuldades para continuar o ritmo acelerado da transformação digital. Além disso, o aumento do trabalho remoto e a adoção global de dispositivos usados como estações de trabalho requereram um aumento imediato e substancial das medidas de cibersegurança. Um relatório de 2020 sobre o argumento de negócio para uma melhor cibersegurança trouxe à tona uma realidade inquietante: apesar de ser prático trabalhar de casa, 57% dos entrevistados disse se sentir mais distraídos que no entorno do escritório tradicional. Esta distração teve uma correlação direta com uma maior vulnerabilidade aos golpes cibernéticos, incluindo a insidiosa ameaça das estafas de phishing.

Há também uma outra razão importante para organizar neste momento uma discussão sobre cibersegurança. De acordo com a Deloitte, na era anterior à pandemia, aproximadamente 20% dos ataques cibernéticos usavam técnicas ou malware previamente desconhecidos. No entanto, com o início da pandemia, esta porcentagem aumentou para 35% neste primeiro ano. Entre os métodos de ataques emergentes, alguns aproveitam as capacidades de aprendizado automático para se adaptarem e driblarem a detecção. Outra tendência preocupante é a crescente complexidade dos golpes de ransomware, empregando estratégias persuasivas com o intuito de obrigar as vítimas a pagarem resgate.

Com o surgimento de modelos inovadores de serviços como o malware, a economia do crime cibernético mudou radicalmente. Os criminosos experientes transformaram seus serviços em um bem de consumo e colocaram suas capacidades de ameaça à disposição dos mercados criminais para que os cibercriminosos que estão dando seus primeiros passos possam adquirir facilmente malware e serviços para implementá-lo, e, ao mesmo tempo, vender credenciais e dados roubados a granel.  Esta prática da indústria manifestou a quantidade de golpes cibernéticos, embora a escala e a intensidade de cada ataque tenha sido alterada à medida que os criminosos experientes se posicionam num patamar mais alto na cadeia de valor criminal para evitar serem detectados. Os grupos de cibercriminosos evoluíram até se tornarem entidades organizadas que refletem a estrutura dos negócios legítimos. Por exemplo, a organização criminal Conti estava repleta de departamentos de marketing, de recursos humanos e de pessoal remoto que talvez ignorassem que estavam participando em atividades criminosas.

As opiniões expressas pelos autores deste blog são próprias e não refletem necessariamente as opiniões de LACNIC.

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