Com o avanço da adoção do IPv6, começam a surgir arquiteturas de rede que operam predominantemente sobre IPv6. Nesse contexto, mecanismos como a Option 108 (IPv6-Only Preferred) definida na RFC 8925, o anúncio de Pref64 via Router Advertisement (RFC 8781) e o modelo 464XLAT, amplamente utilizado em redes móveis, passaram a ganhar maior relevância operacional.
Entretanto, na prática ainda existe uma confusão recorrente entre dois conceitos distintos: IPv6-mostly e IPv6-only. Este artigo discute essa diferença conceitual, analisa o papel desses mecanismos e apresenta implicações práticas observadas em diferentes sistemas operacionais e ambientes de rede.
O caminho para redes IPv6-only
Na abertura da série Star Trek, o espaço é descrito como a fronteira final, um território ainda em exploração, onde novas descobertas redefinem os limites do conhecimento.
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De certa forma, a evolução das redes IP parece atravessar um momento semelhante. Após décadas de coexistência entre IPv4 e IPv6, a Internet começa a se aproximar de uma nova fronteira: o ponto em que arquiteturas baseadas em IPv6-only deixam de ser apenas experimentos ou implantações pontuais e passam a representar um modelo operacional viável em diferentes ambientes.
Nesse cenário surge o conceito de IPv6-mostly, introduzido pela RFC 8925, somado a mecanismos como a Option 108, que permite sinalizar aos clientes a preferência pelo uso de IPv6. Ao mesmo tempo, mecanismos como NAT64, CLAT e o modelo 464XLAT tornam possível o acesso a recursos IPv4 a partir de redes predominantemente IPv6.
IPv6-mostly versus IPv6-only
Uma rede IPv6-only possui uma característica arquitetural clara: o host recebe exclusivamente endereçamento IPv6 e não possui conectividade IPv4 nativa. Quando aplicações precisam acessar recursos que ainda utilizam IPv4, essa comunicação ocorre através de mecanismos de tradução.
De certa forma, a evolução das redes IP parece atravessar um momento semelhante. Após décadas de coexistência entre IPv4 e IPv6, a Internet começa a se aproximar de uma nova fronteira: o ponto em que arquiteturas baseadas em IPv6-only deixam de ser apenas experimentos ou implantações pontuais e passam a representar um modelo operacional viável em diferentes ambientes.
Nesse cenário surge o conceito de IPv6-mostly, introduzido pela RFC 8925, somado a mecanismos como a Option 108, que permite sinalizar aos clientes a preferência pelo uso de IPv6. Ao mesmo tempo, mecanismos como NAT64, CLAT e o modelo 464XLAT tornam possível o acesso a recursos IPv4 a partir de redes predominantemente IPv6.
IPv6-mostly versus IPv6-only
Uma rede IPv6-only possui uma característica arquitetural clara: o host recebe exclusivamente endereçamento IPv6 e não possui conectividade IPv4 nativa. Quando aplicações precisam acessar recursos que ainda utilizam IPv4, essa comunicação ocorre através de mecanismos de tradução.
O modelo mais comum para esse cenário é o 464XLAT (RFC 6877). Nesse modelo existem dois componentes principais:
CLAT (Customer-side Translator), presente no host
PLAT (Provider-side Translator) ou NAT64, presente na infraestrutura da rede
O CLAT converte tráfego IPv4 originado pelas aplicações em tráfego IPv6, que será posteriormente traduzido para IPv4 pelo NAT64.
Já o conceito de IPv6-mostly, introduzido pela RFC 8925, possui natureza diferente. Ele não remove o IPv4 da rede nem altera sua arquitetura fundamental. Em vez disso, define uma política de preferência que incentiva sistemas operacionais e aplicações a utilizarem IPv6 sempre que possível.
Assim, uma rede IPv6-mostly continua sendo essencialmente dual-stack, ainda que com políticas que favoreçam o uso de IPv6.
Option 108 e a preferência por IPv6
A Option 108, definida na RFC 8925, permite que um servidor DHCPv4 informe aos clientes que a rede prefere que eles operem em modo IPv6-only por um determinado período de tempo.
Entretanto, essa opção não é mandatória. A RFC não define que o cliente deve rejeitar IPv4 nem que o DHCPv4 deve ser interrompido.
Na prática, trata-se apenas de uma sinalização de preferência, cuja interpretação depende da implementação do sistema operacional.
Figura 1 – Captura do fluxo DHCP mostrando a interrupção do processo DORA após a sinalização da Option 108, evidenciando a decisão do cliente de não prosseguir com a obtenção de endereço IPv4.
Pref64 e descoberta automática do NAT64
Outro componente importante em redes IPv6-only é o Pref64, definido na RFC 8781.
Esse mecanismo permite que hosts descubram automaticamente qual prefixo IPv6 está sendo utilizado pela rede para realizar tradução NAT64.
O anúncio ocorre por meio de Router Advertisements, permitindo que o host construa endereços IPv6 a partir de endereços IPv4.
Esse processo é essencial para permitir que aplicações alcancem destinos IPv4 em redes IPv6-only.
Comportamento dos Sistemas Operacionais
O comportamento dos dispositivos em relação a esses mecanismos varia entre os diferentes sistemas operacionais.
Plataformas móveis como Android, iOS e versões recentes de macOS possuem suporte nativo ao CLAT, permitindo que dispositivos operem de forma transparente em ambientes IPv6-only.
Figura 2 – Interface CLAT observada em macOS demonstrando a presença do endereço IPv4 192.0.0.2 associado ao tradutor local.
Um desenvolvimento recente com potencial impacto significativo é o suporte emergente ao CLAT no Windows 11. Versões de testes do sistema operacional já demonstram a presença dessa funcionalidade. A consolidação desse suporte pode representar um avanço importante na adoção de arquiteturas IPv6-only em redes corporativas e universitárias.
Figura 3 – Interface CLAT observada em ambiente Windows 11 Insider Preview
Em sistemas Linux, particularmente em distribuições como Ubuntu ou Debian, o suporte automático ao CLAT ainda não é amplamente implementado. Nesse contexto, o tradutor pode ser ativado manualmente com ferramentas como clatd ou jool.
Figura 4 – Execução do clatd em ambiente Linux demonstrando a criação manual da interface CLAT.
Um movimento crescente nas Universidades
Na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a adoção do IPv6 tem evoluído de forma significativa ao longo dos últimos anos. Atualmente, a rede da Universidade já registra níveis de utilização superiores a 75% de tráfego IPv6, refletindo um ambiente onde o protocolo deixou de ser apenas uma tecnologia experimental e passou a desempenhar papel predominante na conectividade da rede.
Como parte dessa evolução, em 2026 foi iniciada um projeto-piloto de adoção do modelo IPv6-mostly nas redes sem fio da Universidade, com o objetivo de incentivar o uso preferencial de IPv6 pelos dispositivos conectados, mantendo ao mesmo tempo compatibilidade com serviços ainda dependentes de IPv4.
Esse tipo de iniciativa também reflete uma tendência que vem aparecendo em eventos técnicos internacionais, onde a discussão sobre redes IPv6-mostly e IPv6-only tem ganhado destaque. Experimentos e relatos operacionais relacionados a esse modelo foram apresentados, por exemplo, no APRICOT 2024, APNIC 57 e LACNIC44, evidenciando o interesse crescente da comunidade técnica em explorar arquiteturas que reduzam a dependência do IPv4.
Esse movimento também tem sido observado em outras instituições acadêmicas. Um exemplo foi apresentado no evento RIUTEC 2025, por Santiago Aggio, onde foi desenvolvido um laboratório experimental voltado ao estudo de ambientes IPv6-mostly, explorando o uso de NAT64 e mecanismos de tradução como forma de viabilizar a conectividade com recursos ainda dependentes de IPv4.
Iniciativas desse tipo demonstram que as Universidades têm desempenhado um papel importante na experimentação e validação de novas arquiteturas de rede, contribuindo tanto para a evolução técnica da Internet quanto para a formação de profissionais preparados para operar infraestruturas baseadas predominantemente em IPv6.
Considerações finais
A distinção entre IPv6-mostly e IPv6-only é mais do que uma questão conceitual: ela define o modelo operacional das redes da próxima geração.
Mecanismos como Option 108, Pref64, NAT64 e CLAT demonstram que a infraestrutura necessária para arquiteturas IPv6-only já está amplamente disponível.
À medida que sistemas operacionais ampliam seu suporte a essas tecnologias, especialmente com a evolução do suporte ao CLAT em plataformas amplamente utilizadas como o Windows, redes IPv6-only tendem a se tornar cada vez mais viáveis em diferentes ambientes operacionais.