{"id":11490,"date":"2019-02-27T13:27:47","date_gmt":"2019-02-27T13:27:47","guid":{"rendered":"https:\/\/prensa.lacnic.net\/news?p=11490"},"modified":"2019-02-27T14:29:49","modified_gmt":"2019-02-27T14:29:49","slug":"a-conectividade-comunitaria-como-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.lacnic.net\/pt-br\/a-conectividade-comunitaria-como-alternativa\/","title":{"rendered":"A conectividade comunit\u00e1ria como alternativa"},"content":{"rendered":"<p>As redes comunit\u00e1rias tornaram o acesso \u00e0 Internet uma realidade para milhares de latino-americanos que vivem em \u00e1reas consideradas de vulnerabilidade econ\u00f4mica e social. Ali, aonde as grandes companhias n\u00e3o chegam com suas fibras e equipamentos sem fio, estes projetos sociais permitiram que muitas pessoas se conectassem \u00e0 Internet e evitassem ser relegadas tamb\u00e9m do mundo digital.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/programafrida.net\/pt-br\/archivos\/project\/atalaya-sur-uma-experiencia-de-conectividade-comunitaria-e-apropriacao-popular-da-tecnologia\">Atalaya Sur<\/a>, nascida em 2014, \u00e9 uma das iniciativas que surgiram na regi\u00e3o para enfrentar o problema da falta de acesso \u00e0 Internet. Impulsionada pela organiza\u00e7\u00e3o social <em>Proyecto Comunidad <\/em>(Projeto Comunidade) a Atalaya Sur conseguiu democratizar o acesso \u00e0 Internet e trouxe conectividade para a populacao de uma vila pr\u00f3xima a Buenos Aires (Villa 20) e de dois povoados em Jujuy (La Quiaca e Cieneguillas) na Argentina.<\/p>\n<p>Devido ao seu desempenho bem sucedido, este projeto foi distinguido com o pr\u00eamio FRiDA 2018. Manuela Gonz\u00e1lez, membro da Atalaya e da organiza\u00e7\u00e3o <em>Proyecto Comunidad<\/em>, considerou que o aspecto social de uma rede comunit\u00e1ria \u00e9 fundamental, pois as mesmas pessoas que usam a rede s\u00e3o as que constroem e assumem o compromisso de mant\u00ea-la e faz\u00ea-la crescer.<\/p>\n<h3>Como nasceu o projeto Atalaya Sur, e como tem evolucionado desde a sua cria\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o v\u00ednhamos da \u00e1rea da tecnologia, mas pela nossa experi\u00eancia entendemos que t\u00ednhamos que resolver essa problem\u00e1tica, porque o acesso desigual, tanto em termos materiais quanto simb\u00f3licos, aprofunda as desigualdades que j\u00e1 existem em termos estruturais e porque entendemos que a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito humano.<\/p>\n<p>Desenvolvemos tr\u00eas linhas de trabalho abordando: (a) o problema da apropria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a partir das dimens\u00f5es do acesso, a distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o comercial da Internet e a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento atrav\u00e9s do desenvolvimento de redes comunit\u00e1rias de conectividade em popula\u00e7\u00f5es que atualmente n\u00e3o acessam ou o fazem de maneira restrita; (b) a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados e a gera\u00e7\u00e3o de plataformas locais para a dissemina\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o da comunidade; e (c) a promo\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas por meio de cursos e oficinas de forma\u00e7\u00e3o sobre o uso das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o, telecomunica\u00e7\u00f5es, programa\u00e7\u00e3o, rob\u00f3tica e impress\u00e3o 3D.<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou na Villa 20 da Cidade Aut\u00f4noma de Buenos Aires, um assentamento no qual mais de 30.000 pessoas vivem em uma situa\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade econ\u00f4mica e social. Ali, assim como n\u00e3o h\u00e1 uma rede de servi\u00e7os b\u00e1sicos, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de contratar um provedor legal da Internet. A fim de conseguir um acesso \u00e0 Internet e \u00e0s TIC acess\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o, foi desenvolvida uma rede WI-FI p\u00fablica, livre e gratuita com 27 pontos de acesso localizados nas principais ruas do assentamento. Assim mesmo, foi desenvolvido o portal <a href=\"http:\/\/www.villa20.org.ar\">www.villa20.org.ar<\/a> e consolidados espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o nas TIC ao servi\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados locais.<\/p>\n<p>O planejamento e instala\u00e7\u00e3o da infraestrutura, que combina o uso de fibra \u00f3ptica e radiofrequ\u00eancia, foram acompanhados por capacita\u00e7\u00e3o em redes voltadas aos jovens do bairro. Isso permitiu a consolida\u00e7\u00e3o de uma equipe t\u00e9cnica que do suporte \u00e0 rede e cuja forma\u00e7\u00e3o contribuiu para replicar a experi\u00eancia em outros territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em 2016, come\u00e7aram a trabalhar na regi\u00e3o Puna, na prov\u00edncia de Jujuy, onde as comunidades tinham um acesso \u00e0 Internet extremamente limitado devido \u00e0 falta de investimento das grandes empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi desenvolvida a Rede Social Chaski, uma Intranet comunit\u00e1ria que, atrav\u00e9s de uma combina\u00e7\u00e3o de infraestrutura de telecomunica\u00e7\u00f5es e desenvolvimento de plataformas em software livre, permitiu a constru\u00e7\u00e3o de um meio de comunica\u00e7\u00e3o local com forte cunho educacional, tecnol\u00f3gico e cultural. A infraestrutura foi desenvolvida por jovens da Villa 20 e membros da comunidade.<\/p>\n<p>Depois, em 2017, a Rede Chaski chegou \u00e0 cidade de Cieneguillas, um povoado de 450 habitantes a 35 quil\u00f4metros da cidade de La Quiaca, que nem tinha telefonia. A conectividade deste povoado precisou da organiza\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos atores da comunidade perante o desafio t\u00e9cnico que envolveu a instala\u00e7\u00e3o de dois saltos (alimentados por energia solar) em dois morros. Hoje, em Cieneguillas, com a colabora\u00e7\u00e3o da comunidade local, pudemos contratar um servi\u00e7o da Internet.<\/p>\n<h3>Quais s\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es principais do projeto?&nbsp;<\/h3>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o fundamental dessa experi\u00eancia \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um modelo bem-sucedido de conectividade que pode ser replicado em outros assentamentos e territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>O projeto permitiu a incorpora\u00e7\u00e3o de jovens entre 18 e 25 anos como equipe t\u00e9cnica da Rede Atalaya Sur. Isso significou n\u00e3o apenas garantir uma equipe que possa realizar a manuten\u00e7\u00e3o e suporte das redes, mas tamb\u00e9m que pudessem ser formados profissionalmente, proporcionando novas oportunidades de emprego. Jovens que, pelo contexto em que vivem, dificilmente houvessem podido ter acesso a esse tipo de conhecimento.<\/p>\n<p>Em Villa 20 houve progressos nas capacita\u00e7\u00f5es dos vizinhos em autoconex\u00e3o e suporte b\u00e1sico das redes, o que permite a detec\u00e7\u00e3o de problemas t\u00e9cnicos que pudessem existir. Este processo comunit\u00e1rio que que vem funcionando, tributa no cuidado e manuten\u00e7\u00e3o da rede.<\/p>\n<p>Hoje estamos progredindo na conex\u00e3o residencial de Villa 20 e no desenvolvimento de um esquema de sustentabilidade que possibilite levar a conectividade para outros bairros.<\/p>\n<h3>As redes comunit\u00e1rias t\u00eam um componente humano que vai muito al\u00e9m da tecnologia usada, pois implicam o envolvimento e o comprometimento da comunidade. \u00c9 essa a chave para o sucesso das redes comunit\u00e1rias?&nbsp;<\/h3>\n<p>O desenvolvimento de redes implica um forte trabalho territorial. Com base em nossa experi\u00eancia, estamos convencidos de que qualquer projeto de conectividade comunit\u00e1ria requer da organiza\u00e7\u00e3o das comunidades, de suas necessidades e interesses, e de processos para apropria\u00e7\u00e3o da tecnologia.<\/p>\n<p>A Internet deve ser um servi\u00e7o p\u00fablico e deve ser garantida para todos. Para isso, precisamos incluir atores que ainda n\u00e3o est\u00e3o incorporados. Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que a comunidade possa assimilar o impacto da tecnologia a partir de refer\u00eancias territoriais, de institui\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias como centros educacionais ou organiza\u00e7\u00f5es sociais, de modo que a tecnologia seja usada como uma reivindica\u00e7\u00e3o territorial e n\u00e3o como uma varredura cultural, que sirva para melhorar la\u00e7os comunit\u00e1rios que existem e n\u00e3o para substitu\u00ed-los como uma comunidade virtual insignificante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas ra\u00edzes sociais.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 confiar nas tecnologias de telecomunica\u00e7\u00f5es para a constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o p\u00fablico, um espa\u00e7o de participa\u00e7\u00e3o irrestrito dos vizinhos.<\/p>\n<p>Neste tipo de redes, o aspecto social \u00e9 fundamental. As mesmas pessoas que usam a rede, a constroem e \u00e9 compromisso de toda a comunidade que a mesma seja mantida e que possa crescer. O objetivo \u00e9 empoderar aas comunidades no acesso e uso da tecnologia.<\/p>\n<h3>Por que as redes comunit\u00e1rias tiveram sucesso em \u00e1reas da Am\u00e9rica Latina e o Caribe onde as grandes empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o expandiram suas redes?<\/h3>\n<p>As redes comunit\u00e1rias surgem para resolver o problema de como conectar as popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram de interesse comercial ou comercial para o mercado e que tamb\u00e9m n\u00e3o foram atingidas por uma pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Os altos n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o de mercado das telecomunica\u00e7\u00f5es e a l\u00f3gica interessada da comunica\u00e7\u00e3o monopol\u00edstica e unidirecional, colocados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia das redes digitais na constru\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica, tornam necess\u00e1rio gerar experi\u00eancias de redes comunit\u00e1rias de conectividade naquelas localidades que n\u00e3o foram de interesse comercial para o mercado.<\/p>\n<p>Existem vastos territ\u00f3rios e comunidades desconectadas. Este \u00e9 o caso das comunidades rurais, mas tamb\u00e9m dos assentamentos mais pobres localizados nos grandes centros urbanos, que mesmo localizados nas jurisdi\u00e7\u00f5es com o n\u00edvel mais alto de penetra\u00e7\u00e3o da banda larga em n\u00edvel nacional, devido \u00e0 sua extrema vulnerabilidade econ\u00f4mica e social, n\u00e3o t\u00eam acesso a provedores legais da Internet, uma vez que n\u00e3o s\u00e3o considerados lucrativos, nem aplicam aos requisitos das contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o reembols\u00e1veis do Servi\u00e7o Universal.<\/p>\n<p>Mesmo que as redes comunit\u00e1rias venham a resolver o problema da acessibilidade, \u00e9 necess\u00e1rio destacar a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas que tornem a conectividade poss\u00edvel para as popula\u00e7\u00f5es desconectadas. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o dos Estados, por meio de seus \u00f3rg\u00e3os reguladores das telecomunica\u00e7\u00f5es, ter a responsabilidade de garantir a conectividade em \u00e1reas onde ainda n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<h3>Como foi a experi\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o na oficina sobre redes comunit\u00e1rias coordenada por FRIDA no F\u00f3rum de Governan\u00e7a da Internet?<\/h3>\n<p>De especial interesse foi a sess\u00e3o em que pudemos compartilhar nossa vis\u00e3o desde as redes comunit\u00e1rias conjuntamente com os financiadores e partes interessadas. Tamb\u00e9m pudemos apresentar uma proposta que excede a existente at\u00e9 hoje sobre o financiamento, a partir da qual, perante a escassez de recursos, o financiamento pode ser direcionado para o fortalecimento das redes comunit\u00e1rias como um todo sem deixar de lado as propostas. Destacamos a grande contribui\u00e7\u00e3o que um grupo de redes comunit\u00e1rias pode fazer, que tem um contato di\u00e1rio com as necessidades locais, na melhor designa\u00e7\u00e3o de recursos por parte dos financiadores. O financiamento \u00e9 um ponto muito importante para n\u00f3s, pois estamos atualmente buscando substituir a tecnologia sem fio da Villa 20 por fibra \u00f3tica. Essa decis\u00e3o responde ao desenvolvimento de um modelo tecnol\u00f3gico inovador na \u00e1rea das redes comunit\u00e1rias, que inclui um processo de capacita\u00e7\u00e3o da equipe t\u00e9cnica local e vizinhos da comunidade. Al\u00e9m disso, nos assentamentos dessas caracter\u00edsticas, densamente povoados, com prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas e prediais, em que \u00e9 destaque o uso de chapas de zinco e concreto sem ventila\u00e7\u00e3o, o uso de fibra \u00f3tica permitir\u00e1 menor depend\u00eancia do servi\u00e7o el\u00e9trico, garantindo maior qualidade e estabilidade na rede. Por outro lado, entendemos que a apropria\u00e7\u00e3o das tecnologias de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o pelos setores mais vulner\u00e1veis da sociedade \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para a redu\u00e7\u00e3o do fosso digital, a inclus\u00e3o laboral e a igualdade de oportunidades.<\/p>\n<p>Acreditamos que boa parte da responsabilidade para a expans\u00e3o das redes comunit\u00e1rias fica por conta dos Estados. A realidade mostra que s\u00e3o os pr\u00f3prios vizinhos organizados que criam redes comunit\u00e1rias sem muita ajuda dos governos. Portanto, vemos que, enquanto houver vizinhos organizados, as redes comunit\u00e1rias continuar\u00e3o a surgir e a regi\u00e3o da ALC \u00e9 especialmente f\u00e9rtil para o surgimento de iniciativas populares desse tipo. Mesmo assim, \u00e9 necess\u00e1rio destacar tanto os atores que possibilitam o surgimento das redes quanto a falta de comprometimento daqueles que devem garantir o acesso \u00e0s TIC.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes comunit\u00e1rias tornaram o acesso \u00e0 Internet uma realidade para milhares de latino-americanos que vivem em \u00e1reas consideradas de vulnerabilidade econ\u00f4mica e social. 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